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[Crítica] Noé


Um dilúvio de interpretações.

As expectativas cercavam Noé, lançado na última sexta-feira nos cinemas brasileiros, como o dilúvio cercou a arca do homem que o nomeia pelos mais diversos motivos. Fosse pela chance de ver o cultuado cineasta Darren Aronofsky (de Cisne Negro) tendo sua chance definitiva numa grande produção, ou pela dificuldade de levar uma história tão conhecida e igualmente cultuada quanto esta passagem da Bíblia aqui adaptada, a uma retratação nas telonas, a produção seguia um caminho arriscado e ainda mais sujeito à uma má recepção de crítica e público.

É importante ressaltar que a adaptação vista não trata-se de uma retratação diretamente bíblica, mas sim de uma adaptação secundária, baseada numa história em quadrinhos desenvolvida pelo próprio diretor, que por sua vez recontextualizada a história narrada no livro religioso. Trama esta que, em sua versão cinematográfica da qual falamos - e a esta nos ateremos, assim não cometendo a frequente imbecilidade de ficar comparando-a com a história original bíblica -, constrói seu personagem-título, vivido por Russell Crowe (de O Homem de Aço) como um homem que, na infância, viveu um trauma diretamente relacionado à violência e, então, tornou-se alguém diretamente ligado à religião, colocando-a acima de tudo e alegando receber mensagens daquele que nomeia "O Criador". Ao receber mais uma destas mensagens, provavelmente a mais séria e intensa, Noé procura certificar-se ao falar com seu avô, o poderoso e místico Matusalém (Anthony Hopkins, de Red 2: Aposentados e Ainda Mais Perigosos), para então compreender integralmente e começar a realizar a missão que acredita ter recebido, e fará o máximo para cumprir: a de construir uma arca, povoá-la com pares de todos os tipos de animais habitantes da Terra, para assim enfrentar um devastador dilúvio que está por vir e poder atravessá-lo, repovoando então o planeta, mas desta vez, sem a raça humana que ocasionou sua destruição - uma vez que o dilúvio apresente-se como um castigo à nossa sociedade por terem explorado seu próprio ambiente a ponto de levá-lo à uma prática implosão. O homem começa a realizar sua missão sendo desacreditado pela maioria, mas conforme anos passam, milagres e castigos surgem para comprovar a verdade em seus objetivos, consequentemente causando a Noé conflitos pessoais - sobretudo graças aos contrastes entre sua ideologia versus necessidade de sobrevivência e proteção à família - e a séria ameaça dos povos que desejam tomar sua arca para sobreviverem à desolação.

A jornada inicial passada pelo protagonista, acompanhado de sua família, rumo a alcançar o velho Matusalém, revela-o tudo o que ainda faltava saber a respeito do mal transmitido por sua sociedade - tornando a cena onde eles salvam a garota ferida por guerrilheiros como um forte complemento aos seus traumas de infância -, vindo a ser fundamental para sua futura decisão de excluir a raça humana dos futuros habitantes da Terra e comprovando, também, que nossa ideologia de decisão, num caso como este, não é diretamente formada por uma doutrina ou lição religiosa - travestindo-se por trás desta para obrigar os fiéis a seguirem suas morais -, mas por experiências e constatações vivenciadas que, acumuladas, formam nossa linha de pensamento. O fato de suas decisões guiarem-se acima de tudo por sua doutrina religiosa, a ponto de medidas drásticas - como ele se enxergar na posição de arriscar a sobrevivência de sua raça e, mais, matar familiares seus para seguir seu objetivo religioso - serem tomadas por conta desta, denunciam em Noé o fanatismo religioso. Esta coerente visão é a que Darren Aronofsky transmite, atravessando certas barreiras das limitações do estúdio - embora esconda-se atrás de muitas outras. As histórias contadas na Bíblia, independentemente da sua crença ou da minha - e ignorando algumas morais duvidosas apresentadas nesta -, contém inegavelmente um grande potencial para boas adaptações audiovisuais, sobretudo por suas metáforas - partirá daí a interpretação do público, uma vez que, caso religioso, você poderá enxergar a catástrofe como um castigo entregue pelo ser superior, e caso não, esta será apenas uma metáfora para as consequências racionais da ação abusiva do homem com seu próprio ambiente. Basta não deixar sua visão a respeito desta influenciar na análise da obra cinematográfica em si - sobretudo, no caso de ser religioso, uma vez que a visão religiosa costuma levar esta mesma Bíblia num nível sério e fanático demais, caindo justamente na crítica proposta.

Os grandes questionamentos de Noé - tanto o homem, quanto a obra - partem sobretudo deste ponto. Qual é o poder que aquele homem teria de decidir a sobrevivência da humanidade, partindo apenas de uma doutrina religiosa? Porém, estaria ele errado, considerando a destruição, realmente causada por esta mesma humanidade? Ele parece decidido a cumprir a missão que fora-lhe dada, quando, inevitavelmente, surge-lhe a grande indecisão a respeito de si mesmo, sua família, e seu direito ou não de embarcar na arca rumo à sobrevivência, mesmo sendo humanos e tão culpados quanto qualquer um dos deixados para trás. Paralelamente à nossa compreensão dos excessos exploratórios de nossa sociedade, levando-a à consequente autodestruição - e trato-a por "sociedade" para assim levar imediatamente à conexão com a filosofia de Jean-Jacques Rosseau, uma vez que as crueldades cometidas não eram naturais aos seres humanos, mas consequentes de sua convivência e supostas necessidades -, também devemos pensar no nível de desenvolvimento social e científico ao qual a raça humana nos levou, trazendo com seus atos também muitos bens, apesar de tantas crueldades. Iria querer, realmente, este criador, que o renascimento do mundo ocorresse sem a principal espécie de sua primeira experiência? Noé pensa que sim, adotando uma postura de certo modo niilista ao crer em toda a crueldade partindo da sociedade, e desejando um mundo povoado somente com a inocência dos animais - embora, para esta conclusão, ele não parta de qualquer filosofia, mas de sua obsessão religiosa -, embora o desenrolar dos fatos tenha preferido correr o risco das duras consequências, e permitido neste renascimento o povoamento também humano - justamente com a família do responsável pela arca.

Se enxerga certo egoísmo nestes ocorridos, justamente sendo este o motivador dos povos que tentaram a invasão da arca - sob a coerente dúvida: qual é a culpa que temos e eles não? -, outro desafio para o valente Noé e seus defensores guardiões de pedra - num trabalho artístico que claramente emula as figuras em stop-motion de Ray Harrihausen -, num arco que destoa dos questionamentos propostos, preferindo apostar no convencional épico conflito homem versus homem, onde apresentam-se apenas outros fatores para levar o espectador a notar a crueldade humana - ao tentar tirar a vida uns dos outros por sua sobrevivência -, e neste ponto, Aronofsky prefere investir num reprovável maniqueísmo ao construir a família de Noé como simples lutadores por sua sobrevivência, diferentemente dos tão cruéis outros povos, cujo líder (Ray Winstone, de Branca de Neve e o Caçador) mata animais inocentes e dá risadas maléficas apenas para mostrar o quanto é cruel. O duvidoso, então, é observar os seres humanos numa luta pela sobrevivência, pura e simplesmente, o que não difere-os ou torna-os mais cruéis, nesta situação, do que qualquer outro animal, que lutaria por sua vida igualmente. A retratação desta crueldade serviria de forma muito mais eficiente ao notar-se a exploração motivada pela ganância, por exemplo, entre outras provas.

A execução e surgimento convencionais da batalha entre a família - acompanhada dos guardiões de pedra, é sempre bom ressaltar - estão acompanhadas de uma ainda mais convencional divisão de atos da fita, onde o surgimento das motivações do protagonista é apresentado, seguido da supracitada batalha e, enfim, o período de sobrevivência na arca acompanhado de um breve retrato do renascimento da vida na Terra. O realizador segue à risca o método de execução de um épico, partindo para a tentativa de um drama mais profundo e alargando as suas reflexões apenas na segunda metade, passada predominantemente na arca. A primeira metade, no entanto, é apressada para tratar de origens bíblicas - Adão e Eva estão lá para refletir sobre o pecado humano -, passando pela jornada da família e alcançando a tantas vezes citada batalha. Utilizando-se de truques da montagem - um travelling circular para representar a evolução de um ambiente, uma rápida sequência contínua que acompanha a nascente de um dilúvio por toda a terra - para avançar sua trama ainda mais rápido, o roteiro de Aronofsky e Ari Handel acaba por não ser capaz de aprofundar-nos na dramaticidade que cerca a situação de forma tão eficiente quanto a desejada.

Com suas personagens, acontece o mesmo. Se Noé é um homem fascinante, que apesar de defender sua família acima de tudo, se vê numa situação de drástica desavença entre esta e sua obsessão religiosa, conseguindo envolver o espectador intensamente com seu drama - Russell Crowe age fundamentalmente nesta intenção, conseguindo transformar seu personagem, aos poucos, numa figura assustadora no cumprimento de seus objetivos -, o mesmo não se aplica, por exemplo, a seus filhos, cujas únicas motivações na trama são, aparentemente, encontrar alguém com quem se reproduzir, jamais dando veracidade à gravidade da situação pela qual passam, ou mesmo o "vilão" vivido por Winstone, que nutre uma raiva jamais profundamente justificada pelo protagonista, tornando-se aos poucos apenas um estereótipo de crueldade - oras, não havia necessidade de tornar assim alguém cujos objetivos são primariamente de garantir a sobrevivência de sua comunidade.

Na verdade, é fato que os principais méritos da fita são técnicos e, por assim dizer, filosóficos. A respeito do primeiro, vale ressaltar a eficiência dos citados truques da montagem de Andrew Weisblum (de Moonrise Kingdom), dos efeitos visuais capazes de construir com grande realismo às figuras animais, da fotografia assinada por Matthew Libatique (de Cisne Negro), acertadamente apostando em tons mais frios em predominante parte da narrativa - sabendo aproveitar tanto a profundidade de campo oferecida pela tridimensionalidade, bem como o escurecimento da imagem também causada por esta, hábil na criação da atmosfera de urgência e desolação da catástrofe - e, por fim, na grandiosa trilha sonora de Clint Mansell (de Segredos de Sangue), servindo como excelente condutor da grandiosidade dos atos narrados. Como gerador de discussão, então, a produção cumpre seus objetivos, posicionando-se acima da média de grande parte dos blockbusters ao levantar questionamentos coesos e não entregar respostas fáceis para estes, deixando-as para a interpretação de cada um de seus espectadores, como boa obra artística - ainda que falte ao diretor a abertura para impor sua visão a certos pontos, deixando por final apenas a conclusão provavelmente acidental de que as morais familiares eram superiores às de toda a humanidade.

A partir da entrada de Noé e sua família à arca, então, finalmente a fita consegue acertar o ponto de sua abordagem, construindo seus questionamentos paralelamente à construção de uma atmosfera dramática forte, realmente envolvendo-nos com o drama de seu protagonista e toda aquela família, diretamente influenciada pelas decisões drásticas deste. Ao partir para um drama menos grandioso - curiosamente, uma vez que trata-se de, segundo a teoria criacionista, a decisão do destino da humanidade - e mais pessoal, intimista, Darren Aronofsky consegue preservar um pouco de sua assinatura - além da visual, cujas marcas nas grandes angulares e nas passagens em apagão da montagem já eram capazes de demonstrar - ao construir, mais nos atos de suas personagens do que em grandes ações, a inquietude necessária daquela situação. Pode até ser que, num momento ou outro deste terceiro ato, a narrativa passe do ponto e tenda ao melodrama, mas, no geral, residem ali os seus grandes momentos.

Por sorte, Noé afasta-se de uma celebração religiosa, firmando-se como épico - sim, pois o é - competente e transmitindo questionamentos, por si só, capazes de elevar a produção a um nível acima da média, de certa forma, por maiores que sejam os seus pecados narrativos cometidos - afastando-o, logo, de tornar-se memorável a ponto de levar suas reflexões tão a frente.

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