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[Crítica] Godzilla

Um monstro herói.


Um monstro herói.

Encontrar a atmosfera adequada para trabalhar com o cultuado, gigante e verde Godzilla numa produção cinematográfica é, certamente, um grande desafio para a equipe que decidir aceitá-lo. A construção socialmente alegórica em torno da figura, sua jornada heroica e, sobretudo, a criação de figuras humanas a sua altura para rodeá-lo foram alguns dos obstáculos a serem atravessados por Gareth Edwards (de Monstros), nesta produção de 2014, em relação à última tentativa de trazer a criatura ao território norte-americano, comandada por Roland Emmerich (de O Ataque), no já longínquo 1998.

Minha total falta de contato com as outras retratações do personagem-título - eis minha confissão - na Sétima Arte me afasta, no entanto, de notar as possíveis novas interpretações realizadas e propostas de diferenciação entre esta obra e aquelas - o que, de certo modo, pode ser até melhor. Nesta reimaginação, Edwards apresenta-nos a Joe Brody (Bryan Cranston, de Breaking Bad), um funcionário do alto escalão de uma indústria nuclear no Japão, e cuja responsabilidade na mesma o fez presenciar a morte da própria esposa (Juliette Binoche, de Cosmópolis), num misterioso acidente que condenou o local. O homem jamais deixou de tecer suspeitas sobre o que estava por trás daquele ocorrido, mesmo 15 anos depois, quando seu filho, Ford (Aaron Taylor-Johnson, de Kick-Ass), recém-retornado de um serviço para o exército norte-americano e residente em São Francisco com sua esposa, Elle (Elizabeth Olsen, de Martha Marcy May Marlene), tem de buscá-lo numa delegacia japonesa, graças a uma invasão cometida pelo mesmo na área isolada onde a empresa ficava. As suspeitas, apesar da incredulidade de seu filho, são comprovadas após uma nova série de acidentes tidos como naturais, porém logo são revelados como originados por uma criatura desconhecida, embora já identificada por empresas de atividade nuclear, o chamado Godzilla. A presença da questão relacionada à ameaça nuclear não deixa de estar presente, então, nesta nova proposta.

Nesta obsessão de Joe em conhecer os eventos geradores do acidente responsável por deixá-lo viúvo, constroem-se os dramas pessoais dos protagonistas. Realizando seus aprofundados estudos em solo japonês, o pai afastou-se de seu filho, provocando um desagradável afastamento entre eles - o que é percebido pelas atitudes de Ford, sem a necessidade de diálogos para estabelecerem detalhadamente o conflito entre os dois. O afastamento familiar também acontece entre o jovem e sua esposa e filho. Embora hajam, no texto do inexperiente Max Borenstein, grandes tentativas de aprofundar suas personagens através dos dramas construídos, os mesmos acabam tendo por vezes um tom artificial ou excessivamente melodramático, o que acaba por fazê-los ocupar um tempo que parece demais para eles, além de não permitir às pessoas ali retratadas caminharem muito além do unidimensional. Claro, um bom desempenho como o de Bryan Cranston - ainda assim, o ator segue precisando ser melhor explorado nas grandes telas - é capaz de explorar bem as linhas mais dramáticas de seu personagem, mas, por fim, o nível de destruição apresentado acaba soando menos envolvente devido à falta de sentimento entre o espectador e os seres humanos retratados. O show fica mesmo por conta do monstro.

A citada destruição, no entanto, não pode ser contestada. Desde os primeiros sinais de destruição das criaturas - o personagem-título e outros dois grandes monstros que são combatidos por este -, temos a representação perfeita da imponência provocada pela ação destes no cenário urbano. Quando os três são, enfim, levados a um confronto, existe uma excelente escolha por parte de Edwards: expor as consequências. Grande parte dos blockbusters recentes têm esquecido, em meio às batalhas intermináveis entre seus heróis, vilões e mais variadas criaturas, de narrar a influência destes eventos para, bem... o mundo. Em Godzilla, as decisões narrativas tomadas pelo diretor não deixam-nas de lado, tornando a fita mais verossímil e expondo a destruição como a mesma deve ser narrada - sacrificando população e propriedades -, e gerando sequências dignas de um bom filme-catástrofe. As batalhas entre os três monstros, propriamente ditas, rendem algumas sequências empolgantes, também.

O empenho visual e narrativo na construção das grandiosas ações presentes no roteiro contrapõem-se à falta de preocupação com o desenvolvimento em torno dos protagonistas destas mesmas catástrofes. Ao contrário do exemplo-clichê Círculo de Fogo, por exemplo, neste longa não há preocupações científicas com a investigação acerca do surgimento e aparição das criaturas, por exemplo, sendo apenas estabelecida a doutrina de que o Godzilla "está em busca do equilíbrio do ecossistema" e que os outros dois monstros estão "buscando se reproduzir", faltando aprofundamento aos mesmos, soando como uma falta de preocupação com determinados detalhes. Tecnicamente, porém, não há reclamações a respeito dos gigantes; construídos com excelência pelos efeitos visuais, comandados por Eric Frazier e sua equipe, de modo a desacelerar seus movimentos para tornar verossímil a relação destes com seu tamanho, mas jamais minimizando sua força, o trabalho visual é evidenciado pelos grandes planos de Edwards, que normalmente focam-nos inteiramente, ainda que recorram ao truque da fotografia extremamente escura - ainda mais evidenciado pelo 3D, sem qualquer necessidade com relação à profundidade visual, e ainda prejudicial ao escurecer exageradamente as tomadas - para esconder possíveis falhas; a sonoplastia, então, destaca-se sobretudo nos surgimentos iniciais das criaturas, onde seus rugidos ganham força na transposição da tela - a decisão de demorar para expor inteiramente o Godzilla, aliás, é outro acerto do realizador. (E outra vez, infelizmente, sou obrigado a criticar duramente - como já fiz em meus textos sobre Philomena e Caçadores de Obras-Primas - o trabalho de Alexandre Desplat, apresentando-se completamente apático nesta produção).

Um erro do cineasta reside na enfatização de determinados diálogos artificiais e clichês, como na oportunidade em que o Dr.Ishiro Serizawa (Ken Watanabe, de A Origem) pronuncia pela primeira vez a denominação da ameaça dos mares, gerando um plano brega, mas exageradamente enfatizado, sendo este apenas um exemplo de presença do ocorrido, que culmina num reencontro, marcado por diálogos previsíveis, entre nosso herói e sua família. Nenhum problema de Godzilla, ainda assim, supera a queda sofrida pelo filme entre seus dois primeiros atos e o terceiro - após a morte de um importante personagem, mais especificamente. De um suspense com traços conspiratórios e recheado de catárticos momentos de catástrofe, a narrativa passa a dividir-se entre a batalha travada por suas criaturas - empolgante, mas posteriormente arrastada além do necessário - e o drama militar e familiar de seu protagonista, perdendo boa parte de seu fôlego. Problemas como os apresentados diminuem Godzilla, ainda que estejam longe de anular algumas boas intenções e mesmo realizações narrativas da obra.

Para lembrar de mais alguns, ainda há, por exemplo, a realização de algumas boas abordagens e detalhes para interpretação, como o nome de seu protagonista - Ford, para reforçar os ideais americanos empregados na luta contra as desconhecidas ameaças - e, ainda, a recontextualização social da luta travada entre as forças militares e os monstros, interessantes representações - pelo desconhecimento das intenções da ameaça - da visão das forças militares norte-americanas hoje, onde não se há um "inimigo" predominantemente estabelecido. São mais algumas marcas destas boas ideias que ajudam a equilibrar a narrativa, tornando-a moderadamente empolgante e competente, ainda que composta por sérios problemas.


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