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[Crítica] No Limite do Amanhã

Por dentro da armadura.


Por dentro da armadura.

Apesar de ser um astro comercialmente consumado dentro da Sétima Arte, Tom Cruise é um ator cuja capacidade artística é subvalorizada. Versátil, o eterno Ethan Hunt aproveitou-se desta sua habilidade para investir em diferentes fases durante sua carreira. Do jovem galã dos filmes ultra-oitentistas - Top Gun: Ases Indomáveis, Cocktail -, logo passou pela fase de intensas performances em papéis dramáticos - Nascido em Quatro de Julho, Magnólia -, a prova definitiva de que ele ia além do estereótipo. Depois, tratou de consolidar-se como um grande astro de ação - Missão: Impossível - e, desde então, estabeleceu fortes parcerias - sobretudo, com Steven Spielberg e Christopher McQuarrie - e vez ou outra arriscou-se até em papéis exigentes de uma performance cômica - Trovão Tropical, Rock of Ages -, tornando-se ainda, no caminho, um importante produtor em Hollywood. Apesar de a ficção científica já ter estado presente antes em sua filmografia - destaque para o soberbo Minority Report -, do ano passado para cá, Cruise vive, definitivamente, sua fase de arriscar-se em novas ideias através do cultuado sci-fi. Se em 2013, com Oblivion, foi protagonista de uma jornada fascinante e um dos melhores blockbusters do ano, em 2014, com No Limite do Amanhã, ele prossegue sua passagem pelo gênero consolidando outra ótima ideia numa admirável grande produção.

A premissa não é tão complexa ou prolífica quanto as ideias dos citados Minority Report ou Oblivion, é verdade, mas não há qualquer problema quanto a isso. Adotando uma estrutura que segue a linha clássica dos jogos de video game, o longa joga o Coronel Cage (Cruise) - relações públicas do exército norte-americano - na posição de um soldado despreparado, onde deverá controlar uma tecnologia militar desenvolvida pelos humanos em sua guerra contra ameaças alienígenas. A grande questão é que, após experimentar a morte neste conflito pela primeira vez, o militar descobre que, quando isto acontece, ele acorda novamente quando está prestes a ser mandado para o campo de batalha, como se estivesse recebendo uma nova oportunidade de lutar. Um checkpoint. Para compreender o que está acontecendo, Cage recebe a ajuda da soldado Rita (Emily Blunt, de Os Agentes do Destino), que já viveu um fenômeno parecido, e o auxiliará a utilizar o recurso a seu favor para garantir a existência de um futuro. Ela conhece as habilidades necessárias para aprimorá-lo enquanto soldado e, não apenas isto, sabe quais são os objetivos a serem cumpridos por ele, gerando o desenvolvimento da missão apocalíptica nas mãos do protagonista.

O primeiro obstáculo a ser atravessado pelo roteiro de Christopher McQuarrie (de Jack Reacher: O Último Tiro), Jez e John-Henry Butterworth (de Jogo de Poder) é garantir que, nestas idas-e-vindas do personagem principal pelo mesmo evento, a repetição inicial de diálogos e situações não tornem a obra aborrecida. Sua agilidade é fundamental para a aquisição desta garantia: uma vez estabelecido o contexto da repetição, não perde-se mais tempo. O estranhamento provocado em Cage pela situação que vivencia ocasiona consequentes mudanças em suas atitudes, gerando surpreendentes - e muito bem-vindos - momentos de gags cômicas extremamente divertidas. A repetição da primeira interação entre o protagonista e a equipe militar, da primeira vez que ocorre, é intencionalmente fria, proposta a gerar um estranhamento, porém, a partir da segunda oportunidade, as reações do protagonista a cada situação re-vivida renovam as sequências. Ou seja, ainda quando as repetições surgem, o filme mantém um fôlego invejável, dotado de admirável agilidade, proporcionada, sobretudo, por suas injeções de extroversão sempre muito bem calculadas.

A produção de Doug Liman (de Jumper), aliás, tem como maior trunfo a opção de não focar-se centralmente do desenvolvimento da ação, mas sim de suas personagens. No Limite do Amanhã conta com dois protagonistas cujas performances carismáticas e equilibradas de seus intérpretes auxiliam fundamentalmente na construção de dois seres humanos envoltos por uma realidade de ficção científica. A começar por Tom Cruise, expressando a confusão de seu Cage pela situação vivenciada perfeitamente através de uma composição dotada de fragilidade - repare no momento, na casa abandonada, em que este tenta, inocentemente, enganar Rita somente para poder garantir que a mesma viva, ainda que apenas por mais alguns instantes - contrastando de maneira divertida com os seus confiantes truques a partir de quando domina sua habilidade de novas chances. Emily Blunt, então, não está nada atrás, compondo uma personagem forte - e sempre militarmente superior ao seu parceiro, uma grata surpresa, dado o habitual machismo hollywoodiano - e determinada durante toda a projeção, podendo inclusive soar como um pouco rabugenta vez ou outra, mas de maneira alguma mal intencionada. A bela atriz jamais entrega-se ao estereótipo da mulher do romantismo - ainda que um inevitável romance acabe surgindo, eventualmente, entre os protagonistas.

Alinhando sua trama ao desenvolvimento das personagens, sem jamais deixá-las como coadjuvantes para a construção de um show pirotécnico, No Limite do Amanhã não desaponta, de forma alguma, com relação às sequências de ação. Os efeitos visuais da produção funcionam muito bem, sobretudo com relação à construção mais prática de suas criaturas alienígenas, acompanhados de um trabalho fotográfico que, se opta por cores mais claras durante a maior parte da projeção, realiza eficientemente um contraponto com o tom profundamente escuro que toma o terceiro ato da mesma - representando seu desfecho apocalíptico -, ambas as decisões hábeis para não prejudicar a experiência em 3D do espectador que, se não oferece grandes atrativos, tem lá seus momentos no ganho de profundidade. As principais sequências de ação localizam-se na batalha militar, não perdendo-se geograficamente - exceto por uma oportunidade - e utilizando-se das questões temporais do roteiro para não alastrarem-se além do necessário - fugindo de um erro comum a muitos dos blockbusters recentes -, provando-se eficientemente ágeis.

O único problema realmente sério de No Limite do Amanhã localiza-se, justamente, numa decisão tomada em seu desfecho, e que ignora uma mitologia muito bem estabelecida para a justificativa paradoxal afim de cumprir com as requisições comerciais hollywoodianas e representativa de uma tremenda falta de coragem e coerência da produção. Ainda assim, a decisão revela mais uma camada no paradoxo estabelecido: quem sabe aquele não era apenas mais um dos desfechos prévios? De qualquer forma, foi uma questão problemática e merecedora de uma explicação.

Ainda assim, No Limite do Amanhã tem uma quantidade muito maior de méritos, sobretudo, por oferecer uma mescla tão bem equilibrada entre boas sequências de ação, certas camadas dramáticas - oriundas da crescente relação entre os protagonistas em pleno contexto apocalíptico -, bons personagens, surpreendentes doses de bom humor e a dose adequada de ficção científica, compondo aquela que, certamente, é uma das fitas mais ágeis e divertidas do ano, ainda que fuja de quebrar qualquer paradigma ou estabelecimento de coragem (e será que precisava mesmo?). Afinal de contas, explorar melhor o que há dentro da armadura pode ser muito mais interessante do que aprimorá-la.

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