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[Especial] Séries: Algumas reflexões sobre a Primeira Temporada de Transparent



But you treat me like a stranger and that feels so rough […] Now you're just somebody that I used to know”. Estas são algumas das frases já famosas proferidas por Gotye em sua canção pop e pelo personagem central de Transparent em determinado momento da série. Começo aqui citando essas duas frases pois não só mostram bem um dos pontos centrais da aposta da Amazon no modelo seriado em streaming, como, após assistir todos os episódios, essas letras unidas que formam sentenças tão bonitas podem se mostrar impactantes e profundas, se postas no local e momento certos.

A música trata sobre a estranheza dos relacionamentos humanos, mais especificamente sobre o tipo de relação entre casais. Porém, quando nossa protagonista a canta, tudo que foi visto na série de certa forma se engrandece e fica mais claro - mostrando que todos os 10 episódios tratam sobre a dificuldade de aceitação - sobre a dureza cega que podemos ter dentro de nós, sobre a não conexão com o próximo, sobre o distanciamento familiar, sobre a confusão interior que cada um de nós carrega em silêncio, mas o mais importante: sobre a dificuldade de nos conectarmos uns com os outros. Dificuldade esta que pode ter motivos infinitos, mas que a criadora da série, Jill Solloway (A Sete Palmos, United States of Tara) foca especificamente em uma única razão: preconceito.

E posso definir aqui um único ponto central que acarreta todas as motivações do plot, pois dele derivam infinitas mesquinharias vindas do homem, sejam elas inveja, hipocrisia ou ódio, o preconceito contém todas e mais. A premissa da série começa por ai e acaba se agigantando com o passar do tempo. Temos um pai divorciado de três filhos que decide "sair do armário" como transexual aos 68 anos, todos os filhos já atingindo suas meias idades, duas moças e um moço, a mais velha sendo casada e já com duas crianças em seu ninho; o do meio, afundado em uma vida de mulheres fáceis e problemas de relacionamentos e a mais nova uma perdida na vida, sem saber pra onde ir, com quem ficar ou o que pensar. Após a revelação de seu pai, a vida dos três é radicalmente alterada... Mas por quê? Claro que se o pai de qualquer leitor deste texto se revelasse transexual neste exato momento, tenho certeza que o impacto seria tremendo, mas no fim das contas não seria apenas um reflexo claro de que ele simplesmente conseguiu alcançar a felicidade que sempre desejou?

Pensem bem, tanto o pai hipotético que criei quanto o pai de Transparent sofrem os mesmos problemas durante suas vidas. E um dos pontos mais fantásticos da criação de Jill Solloway se firma em nos apresentar como nosso protagonista, Mort Pferfferman, lidou toda sua vida com o sentimento complexo e reprimido de estar preso em um corpo que não lhe pertence. O mais curioso é que já falei sobre preconceito ser o ponto central de tudo, mas no caso dos flashbacks que temos de Mort, todas as dificuldades apresentadas vêm do interior e de como o medo de si afetou o personagem durante todos os anos, seja criança (em uma cena ele se abre e explica para sua filha mais velha o quão difícil era ser tão jovem e já saber que está no receptáculo errado), ou quando lecionava na universidade. Claro que muito dessa falta de iniciativa de se revelar quem realmente é, é algo extremamente complexo, e o que pessoas com orientações sexuais diferentes das que o imaginário coletivo aprova passam está posto em qualquer lugar, seja no dia a dia ou em notícias assustadoras, ou até mesmo em marchas dos que se acham melhores e mais puros.

Claro que com um mundo tão hostil lá fora a decisão de revelar quem você realmente é acaba sendo absolutamente difícil, e eu aplaudo todos que conseguem, mas o que a série nos apresenta é o oposto, mesmo que aqui ou acolá nos sejam postos exemplos claros de ignorância do exterior geral, o "sair do armário" de Mort tem em seu dilema não esse medo normal, mas um medo existencial e interior, já que se trata mais do reflexo de sua família do que o medo do que estar lá fora, o que afeta ainda mais a carne e a mente. Tudo isso é apresentado da forma mais bela por meio das cenas em flashback, que são focadas quase que completamente no ano de 1994, um ano vital para a mudança posterior de Mort. Porém, mesmo tendo alguns exemplos interessantes e sutis de preconceitos sofridos em sua jornada, fica claro que a barreira mais difícil para Mort superar é, de fato, sua família.

Ser trans não significa ser gay automaticamente, o que a série deixa claro em uma cena belíssima onde Mort, após assumir para a esposa sua real vontade, diz com ainda mais honestidade do que qualquer outra vez "eu te amo". O problema é que já tendo construído uma família tão "convencional", o personagem se vê sem saídas e não consegue enxergar ruptura possível de sua vida "pai de família, heterossexual e bem sucedido", ainda mais em tempos passado, como o próprio 1994, que fica claro que é onde ele teve seu maior número de fugas e descobertas pessoais, seja encontrando um amigo que também se travestia (mas que eventualmente deixa claro não ser transexual) ou revelando para a sua mulher, o que acaba acarretando no divórcio, mas nada se compara com o peso que é revelar para os filhos a sua real Persona. E a demora para a revelação nada mais é causada do que pelo medo de Mort do que suas crianças podem pensar. E isso não é desnecessário ou gratuito, fica claro o porquê de tanto medo quando eventualmente durante os episódios Mort se assume 100% para seus filhos. Todos os três estão tão envolvidos em preconceitos e emoções que não conseguem racionalizar em nenhum momento como é difícil Ser, e esse "Ser" com "S" maiúsculo está aqui assim porque se trata de um Ser filosófico, o ser existencial, o ser que procuramos desde que nascemos, aquele que levanta a pergunta famosa "quem somos?", e é este Ser que envolve Transparent.

No fim de tudo, os filhos têm mais problemas em saber quem realmente são do que o próprio pai, que claramente sempre soube quem era, mas era impotente quanto as ações que poderia/deveria tomar. E nada mais poderoso do que mostrar que quanto menos você sabe sobre você mesmo, mais ignorante e agressivo você é com novidades que não compreende, levando assim ao nosso famoso "preconceito". E eu coloquei o preconceito como ponto central, pois, apesar de não estar super exposto em diálogos que tratam o espectador como idiota, ele está ali, intrínseco nos personagens centrais que envolvem Mort: todos os filhos. Cada um dos três tem um tipo de curiosidade ou ânsia em relação ao pai, e mesmo a filha mais velha, aparentando ser mais evoluída e liberal, acaba mostrando ter os mesmos problemas que seus irmãos. Problemas que culminam na cena que talvez seja a mais triste de toda a série, quando os três riem debochadamente de seu pai que, em um show de talentos para transexuais, canta a música com a qual dei início esse texto.

Agora, vamos nos atentar a este momento, não só ele se passa já na segunda metade da temporada, como acontece num ponto especial para Mort, que decide, num salto de fé, demonstrar uma coragem absurda e não só aparecer em cima de um palco, mas também cantar; e tudo o que queria era o suporte de seus filhos, que ali já sabiam há algum tempo sobre sua revelação. Mas os três decidem fumar maconha antes, e no momento da apresentação não conseguem enfrentar o pai como ele realmente é, não conseguem aceitar ele em sua verdadeira pele, e debocham e fogem, e o abandonam. É o momento mais destruidor para Mort, que daqui pra frente chamarei de Maura, que é como ela realmente se chama. Esse momento resume tudo que nos é mostrado durante toda a série, a dificuldade que os filhos têm em saber quem são com o fato de seu pai saber quem é. Aparentemente é afrontoso para eles que ele esteja certo de tudo sobre onde sua vida está e eles não.

A filha mais velha se separa do marido pra ficar com um amor juvenil e acaba percebendo que não era bem isso que queria; o filho do meio descobre que vai ser pai e já pensa em casar e acaba levando um pé na bunda e um filho abortado, sem falar que ele era molestado por sua babá quando tinha 15 anos. E a filha mais nova... Ah, a filha mais nova, ela é o reflexo mais profundo de todos nós. Ela é a perdida, a que não sabe se é homem, mulher, gay ou hétero, trans ou não, se estuda ou fica estagnada, se ama a melhor amiga ou não, se odeia o irmão ou o ama, se quer um Bar Mitzváh ou fugir com um cara mais velho. Ela pode ser a personagem mais irritante de toda a jornada, mas é com certeza a que mais mostra como somos seres mesquinhos, individualistas e perdidos. Ela é a que está mais longe de encontrar uma luz. Até seus irmãos, ao fim da temporada, refletem mais sobre seus destinos do que ela, que continua tentando atrapalhar a vida amorosa do irmão enquanto este está finalmente decidido a se relacionar sério.

E acho que neste momento já repararam que não dei o nome de nenhum outro personagem, a não ser o Mort/Maura, e sim foi proposital. Por quê? Porque o que eu quero é que todos saibam que esses três personagens mesquinhos, preconceituosos, mimados e que só fazem maltratar uns aos outros não passam de versões desmembradas de cada um de nós. E este é o gran finale que Jill Solloway e sua equipe inteira nos entregam, uma grande reflexão sobre nós mesmos, sobre no que acreditamos ou pensamos acreditar, sobre mentiras que contamos a nós mesmos, sobre os vazios que nos afligem todos os dias, sobre as dúvidas que nos cercam, sobre a segurança que preferimos ao invés da felicidade real. Tudo ao fim desse primeiro ano de série se resume a isso, a olharmos para nós mesmos e pensarmos sobre nossas convicções e certezas, nossas ideias do que é amor ou do que é apropriado.

Toda essa quebra com o imaginário coletivo é construída de maneira primorosa, seja por meio dos personagens ou da atmosfera criada. E embora já tenhamos produtos na grande mídia que retratam os transexuais como, por exemplo, os filmes do Almodóvar ou o longa Transamérica, nenhum deles conseguiu se aprofundar tanto nos dilemas interiores e problemas das relações humanas como esta série. Claro que em Tudo Sobre mi Madre há um claro debate em cima da marginalização dos transexuais e em Transamérica há o problema de um pai tendo que fazer o filho entender que agora é a sua mãe, mas digamos que Transparent é a mistura dos dois com um pouco mais de sabor, pois vai além dos estereótipos e não liga para concessões ou o que a grande massa branca heterossexual cheia de valores pode pensar. É uma série corajosa como produto e um exemplo maravilhoso de como o modelo seriado atualmente vem quebrando com as convenções e até a forma de se fazer TV.
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