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[Crítica] Leviatã


Desde seu lançamento, Leviatã vem sendo descrito como “um filme de horror” pelo seu conteúdo sombrio e doloroso. Longe disso; apesar de determinados momentos parecerem genuinamente saídos de um pesadelo, Leviatã é, no máximo, uma parábola, e, como tal, conta com um tanto de indulgência e uma mensagem escancarada sobre a corrupção e a ligação entre o Estado e a Igreja no governo russo, o que é conveniente num ano em que a imprensa e as premiações norte-americanas decidiram voltar a investir em conteúdo nacionalista e etnocêntrico para as premiações.

Leviatã conta a história de Kolia, que mora numa pequena cidade à beira do mar de Barents, no norte da Rússia. Ele tem um terreno ao lado da casa onde vive com a mulher Lylia e o filho Romka, de um casamento anterior. Vadim Cheleviat, o Presidente da Câmara da cidade, deseja apropriar-se da casa e do terreno do Kolia para colocar em prática alguns projetos. De início tenta comprar a propriedade, mas Kolia não suporta a ideia de perder tudo o que possui – não apenas o terreno mas também a beleza que o rodeia desde que nasceu. Cheleviat, então, fica mais agressivo.

O filme abre com belíssimas imagens do litoral russo, onde a história se passa. A sequência prediz a maestria técnica que embalará os 140 minutos do longa: a direção de Andrei Zvyagintsev é confiante e densa, enquanto a fotografia de Mikhail Krichman, em especial quando auxiliada pelos vastos cenários naturais, garante uma das experiências visuais mais extasiantes da temporada. Os longos momentos de silêncio – interrompidos apenas nas sequências inicial e final por uma assombrosa peça sonora – são essenciais para garantir um clima soturno, tenso e sóbrio. No que diz respeito à direção de arte, estamos diante de um dos mais impressionantes trabalhos do ano, uma vez que Leviatã é um filme lindo de ser visto.

O mesmo, entretanto, não pode ser dito do roteiro, que, apesar de ser bom e de entregar o que promete, jamais vai além. Leviatã é, sobretudo, um filme expositivo. E, por isso, é tanto magnífico quanto decepcionante. Magnífico porque nenhum minuto de suas mais de duas horas parece dispensável ou arrastado, apesar do desenvolvimento calmo e lento. Decepcionante porque, apesar de duro e forte, em nenhum momento deixa de ser um filme com uma mensagem para se tornar algo mais. Mesmo melancólico e desesperançoso, o longa raramente alcança o ponto em que realmente choca o espectador, o que deve-se especialmente a sua relutância em estabelecer um único ponto de foco. Isto não é oficialmente uma falha, uma vez que complementa o estilo alegórico da narrativa, mas sem dúvidas atrapalha o necessário aprofundamento da história.

Talvez, de fato, Leviatã seja um filme de horror, uma vez que este é o adjetivo certo para caracterizar a situação de Kolia. E não é possível negar que o longa nos horroriza também com sua apologia assombrosa para o atual momento político na Rússia. Ao final, porém, Leviatã não decola e permanece morno – apesar de ter conseguido me deixar pensando em suas alegorias muito tempo após a sessão. Tecnicamente deslumbrante e bem atuado, mas ordinário em narrativa, Leviatã está longe de ser grande, mas é, de fato, um bom filme.

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