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[Resenha] Pequena Abelha


É difícil falar sobre Pequena Abelha quando há tanto sigilo em torno do livro, desde a misteriosa (e belíssima) capa até a estranha sinopse, que se nega a dar um mínimo detalhe sobre a trama sob a desculpa de “ser uma história extraordinária cuja surpresa não deve ser estragada”. Num óbvio truque publicitário, não obstante, tal escolha garantiu a mim uma leitura mais tranquila, às cegas, sem nenhuma expectativa em mente senão a grandeza prometida, de forma que fui realmente surpreendido quanto ao tema já na primeira página. Talvez, mais livros devessem se vender como Pequena Abelha. Nós, os leitores, poderíamos nos beneficiar da quebra de expectativa, mesmo nos livros mais fracos.

Em respeito a esta escolha, manterei o máximo possível de silêncio quanto à história. Entretanto, para poder comentar apropriadamente, terei que ser um pouco mais escancarado do que a sinopse oficial permite. Pequena Abelha é a história de duas mulheres, Sarah e a personagem título, de realidades muito diferentes. Um dia, suas vidas se entrelaçam e mudam para sempre, assim como as vidas de todos a seu redor. Dois anos depois, elas se reencontram, fazendo ressurgir fantasmas do passado e criando alguns novos, também.

Antes de mais nada, The Other Hand, no original, é um livro poderoso. Mesmo dotado de diversas falhas (sobre as quais discorrerei abaixo), Pequena Abelha é inegável e pavorosamente impactante. Não só é um incrível drama pessoal, como oferece um importante comentário político sobre as condições de muitas pessoas na mesma situação de Abelhinha, e, em especial, os diversos tipos de preconceito (os quais não posso revelar, pois acabaria entregando a trama) inseridos na sociedade britânica – e por que não na classe média em geral?

De fato, Pequena Abelha sofre ocasionalmente com o excesso de melodrama. Certas cenas são exageradas e irreais (num livro cujo sucesso se encontra justamente no realismo cruel), e a trama, de maneira geral, recorre mais frequentemente do que o desejado a pontos comuns desse tipo de história. Porém, o que eleva este livro e o torna tão especial são a narração densa e emocional, a incrível estrutura e a brutalidade com que Chris Cleave conduz sua narrativa. Quero ressaltar este último fator: Pequena Abelha pode ser considerado quase um livro de horror, e – repito – é um dos livros mais brutais que li nos últimos anos. 

Cleave narra de maneira lírica e introspectiva, enchendo seus capítulos com menos acontecimentos e mais reflexões pessoais de cada personagem, de forma que, ao final do livro, Sarah e Pequena Abelha são personagens intensamente bem formuladas, multidimensionais e humanas em seus sentimentos, sendo a segunda quase icônica. Além disso, a estrutura da narração é especialmente espetacular, sendo cada um dos capítulos um pequeno pedaço da história com três atos, em que um fato do passado (o primeiro ato) é importante para o desenrolar dos acontecimentos. À primeira vista, tal estilo pode parecer estranho e cansativo, mas, ao final da leitura, torna-se um dos maiores e mais inteligentes acertos de Pequena Abelha.

Às vezes, The Other Hand tropeça no sentimentalismo e nos clichês, e seu último capítulo deixa a desejar em diversos pontos, mas, no final, é um livro essencialmente bem escrito com uma mensagem triste e chocante, sobretudo por ser real. Um livro sobre empatia, escolha e libertação (e este substantivo, apesar de abrangente, flerta ligeiramente com o acompanhamento de "feminina"), Pequena Abelha não é perfeito, mas é estarrecedor.

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