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[Crítica] Kingsman: Serviço Secreto

" Manners maketh man. "


"Manners maketh man."

Subverter gêneros sempre foi algo recorrente na impecável filmografia do inglês Matthew Vaughn. Se ainda em Nem Tudo é o Que Parece (2004) o diretor já se sentia à vontade ao trabalhar com clichês de uma forma sóbria e divertida, foi com a inspirada adaptação de Kick-Ass (2010) que o mundo pôde enfim tomar conhecimento da força autoral do cineasta. Vaughn consegue, como ninguém, trabalhar em cima do perfil de "mocinhos" underdogs que encontram escape, do meio opressivo em que vivem, na violência cartunesca de seus respectivos universos. O trunfo aqui é que o diretor e sua parceira roteirista, Jane Goldman, nunca prejulgam a falta de escrúpulos dos seus personagens. Assim, vilões e heróis acabam dividindo a tela com a mesma simpatia e destaque.

Em Kingsman: Serviço Secreto, o jovem Gary "Eggsy" Unwin (Taron Egerton) tem que levar a vida num subúrbio londrino, com a certeza de que voltará para casa no fim do dia e encontrará o padrasto abusivo e a mãe, que parece viciada, em se submeter às humilhações do marido. É quando surge o cortês Galahad (Colin Firth), integrante de um serviço de inteligência secreto cujo pai de Eggsy um dia foi membro. Funcionando como uma versão contemporânea dos Cavaleiros da Távola Redonda, os kingsman são uma antiga sociedade que defende os interesses do seu país, porém condena a fama que o status de herói nacional poderia imprimir. Galahad tem uma chance de vaga para Eggsy na distinta "cavalaria", mas o surgimento do psicopata megalomaníaco Valentine (Samuel L. Jackson) colocará os dois e seus parceiros numa corrida sangrenta para salvar a humanidade.

Parodiando os filmes clássicos de espionagem - mais precisamente 007 -, a obra, também adaptada de uma HQ do autor Mark Millar (o criador de Kick-Ass), se desprende das convenções mais óbvias ao apostar em gags que abusam da metalinguagem e da loucura psicodélica da trama. Brincando mais de uma vez com a máxima "aqui não é esse tipo de filme", o roteiro foge, por exemplo, até de estereótipos românticos ao colocar duas protagonistas femininas - a corajosa heroína Roxy (Sophie Cookson) e a letal vilã Gazelle (Sofia Boutella) - com papéis que, por mais que apontem para o costumeiro affair do herói ou femme fatale sexista, são mais do que aparentam e têm seus próprios arcos dramáticos bem definidos, sem precisar de uma figura masculina para sustentá-los.

É também de deixar atônito o brilhantismo do design de produção de Paul Kirby que, se unindo à vivaz direção de arte do filme, transforma a jornada de Eggsy numa verdadeira rima à imponência visual e clean dos kingsman. Percebam como o jovem Taron Egerton - estreando com o pé direito em Hollywood - aos poucos adquire os trejeitos de Colin Firth, justo por tomar parte do desenho de tela que vai se mostrando como algo crescente e determinante no mundo do cavalheiro espião que apresentou o legado deixado pelo pai do jovem.

A trilha sonora que traz de Dire Straits à clássica Slave to Love, de Bryan Ferry, em sequências divertidíssimas é outro ponto alto do longa, sendo utilizada surpreendentemente com um tom diegético nas melhores cenas de ação. A visita de Galahad a uma igreja do Kentucky, por exemplo, acaba se aproximando - sem exageros - ao encontro da Noiva com a gangue dos 88 Loucos no primeiro Kill Bill, e por aí vocês devem imaginar qual o resultado do encontro em si.

Surgindo para consagrar Matthew Vaughn e sua equipe no mesmo hall de nomes como o de Edgar Wright, Kingsman: Serviço Secreto é daqueles filmes pipoca que se mostram mais do que um exercício de estilo, mesmo quando carrega no se entender como clichê seu maior trunfo. Sem dúvidas, o primeiro grande exemplar de ação e diversão com algo a mais deste 2015.

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