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[Crítica] Timbuktu

Um filme que já nasceu icônico.


Um filme que já nasceu icônico.

Em determinado momento, no segundo ato de Timbuktu, o diretor nos mostra uma cena um tanto ordinária, mas importante para o desenvolvimento do filme. Trata-se do momento em que, à luz do crepúsculo, oficiais de uma milícia formada por radicais islâmicos descobrem o corpo de um homem assassinado às margens de um lago, um pequeno oásis na paisagem árida do deserto. Na cena seguinte, o assassino seria capturado e, alguns momentos mais tarde, passaria por uma situação desesperadora nas mãos do Estado Islâmico. Porém, me atenho à imagem do cadáver, meio afundado na parcela mais rasa do lago, e dos extremistas, de nacionalidades diferentes, debatendo sobre o crime através do rádio. A cena captura apenas suas silhuetas, ora contra a luz do pôr do sol, ora refletidas junto à mesma na superfície da água. É com cenas como esta, de imensa beleza visual, e com uma premissa cruel, que Timbuktu se desenrola.

Inspirado pela breve ocupação do grupo Ansar Dine na cidade homônima, entre 2012 e 2013, Timbuktu conta a história de Kidane (Ibrahim Ahmed) e sua família. Kidane é um pastor que vive tranquilamente à margem da ocupação de sua cidade, até o dia em que entra num pequeno conflito com seu vizinho. A partir de então, passará a ser perseguido pela facção. Várias tramas menores estão intercaladas à principal, mostrando o novo cotidiano dos habitantes e dos extremistas.

Mais frequentemente do que se imagina, Timbuktu nos presenteia com cenas que podem ser consideradas antológicas desde já. Não raramente testemunhamos planos que, se congelados em um quadro, renderiam uma impactante fotografia. A força de Timbuktu é extrema e inquietante. Seu tema, por si só perturbador, ganha ainda mais tensão nas mãos do diretor Abderrahmane Sissako. Mesmo que a violência física seja utilizada em pouquíssimas cenas (e, nestas, o horror é tremendo), a violência simbólica está presente em cada um dos 97 minutos do filme.

Tumbuktu tem dois grandes triunfos. O primeiro é a premissa de fazer uma colagem de várias situações de atrito entre os extremistas islâmicos e os habitantes da cidade; apesar da trama destacar mais o drama de Kidane e sua família, cerca de dois terços de sua duração é dedicada a pequenos personagens que aparecem e desaparecem brevemente, permitindo assim um rico panorama sobre a situação geral da cidade. O segundo (que também deve-se em parte ao primeiro) é a proposta de mostrar o embate entre a ideologia extremista e a prática religiosa dos cidadãos, que também seguem o Islã, fazendo cair por terra a concepção de que muçulmanos em geral são coniventes ou defendem o Estado Islâmico; na verdade, esses habitantes indefesos e dominados são as maiores vítimas. 

Da mesma forma, Timbuktu tem sucesso em desconstruir outros estereótipos sobre o islamismo, como, por exemplo, os comportamentais, jamais recorrendo ao maniqueísmo. Os radicais, assim como os protagonistas, são personagens multidimensionais e bem desenvolvidos em detalhes, nunca demonizados. Aliás, outro aspecto interessante do longa é a imposição de regras, rígidas contra a população geral, mas nem tanto em relação aos detentores do poder. Os radicais pregam o Islã, mas, em determinado momento, distorcem-no para favorecê-los; um dos oficiais fuma, dança e protege uma mulher de seu passado, de forma que esta não é obrigada a usar trajes pesados nem se dirige respeitosamente aos militantes; em uma das cenas, homens armados discutem avidamente a Copa do Mundo de futebol, somente para, minutos mais tarde, ser revelado que o esporte é proibido na cidade (situação que rende uma das cenas mais fortes e belas do filme); música também é proibida, e um dos momentos mais geniais do longa mostra que nem mesmo um louvor a Alá é aceitável. A exigência de comprometimento para com as regras impostas parece ser diferente entre dominadores e dominados, e resta ao espectador refletir se é realmente a religião que move este regime. 

Em discussão com os militantes, Kidane levanta diversas vezes a importância de Deus e de Seu julgamento em sua vida - quase como se afrontasse e desafiasse os oficiais a admitirem o mesmo. É de sutilezas como esta de que o roteiro simples, mas efetivo, é feito. Já a direção de Sissako é afiada e cruel, o que, em comunhão à já citada bela fotografia de Sofian El Fani, cria imagens belíssimas e estonteantes, que, por sua vez, ajudam na construção do tom sóbrio e soturno. Com a atuação sincera de Ibrahim Ahmed, no papel do protagonista, bem como do elenco secundário, o grande (e talvez único) equívoco do longa é a super-utilização de sua trilha sonora, que, embora extenue alguns momentos, frequentemente apenas atrapalha cenas que seriam muito mais impactantes em silêncio.

Num momento em que a islamofobia e a paranoia voltam a crescer assustadoramente, Timbuktu é um indispensável pedido de socorro. Belo e terrível, este filme é capaz de tirar seu ar e te assombrar por muito tempo após o fim da sessão. Um grito importantíssimo sobre aqueles que viveram na real Timbuktu e, infelizmente, para os que ainda vivem em tantas outras.

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