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[Resenha] Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo


Foi somente nos últimos meses que percebi a afeição imensa que desenvolvi por histórias coming-of-age. Somente há pouco notei a quantidade de filmes, livros, séries, etc., do gênero que figuram entre meus favoritos, e o quão avidamente eu procuro por mais e mais. Mesmo as histórias mais bobas despertam meu interesse, e não consigo odiar nem as mais medíocres. Portanto, não seria estranho imaginar o porquê de Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo ter chamado tanto minha atenção, fora o título provocante e a capa belíssima, claro. E esta está longe de ser uma história boba ou medíocre; o autor Benjamin Alire Sáenz faz um dos mais belos e sensíveis contos de amadurecimento que testemunhei nos últimos anos.

Aristóteles e Dante narra a história dos personagens-título sob a perspectiva do primeiro. Ari é um garoto mexico-americano recluso e sem amigos; ele tem raiva do mundo por não entendê-lo, e de sua família, por manter tantos segredos, especialmente em relação ao irmão que cumpre pena por um crime desconhecido. Um dia, Ari conhece Dante, um garoto inteligente, apaixonado por arte, igualmente solitário e igualmente nomeado em homenagem a uma grande personalidade histórica. Através desta amizade, Ari e Dante descobrirão segredos sobre si mesmos, sobre as pessoas que serão e sobre o Universo.

Benjamin Alire Sáenz é habilidoso em retratar a confusão e os questionamentos da juventude. Sáenz tem um daqueles raros olhares que observam os mínimos detalhes do mundo ao seu redor, encontrando beleza nas situações mais ordinárias do cotidiano. Ainda, Sáenz se destaca por conseguir com sucesso inegável guiar sua narração com enfoque menor em acontecimentos literais, dedicando-se mais às reflexões de Ari, que pode vir a se tornar um dos personagens mais icônicos da literatura YA contemporânea. Sua personalidade é tão bem construída e tão acessível para o leitor que é difícil não se identificar logo nas primeiras páginas. Portanto, não é preciso dizer que acompanhar seus pensamentos é uma experiência catártica e intensamente emocional para qualquer adolescente (e, por que não, qualquer pessoa) que, em algum momento da sua vida, se sentiu estranho e deslocado.

Como tal, Aristóteles e Dante é um livro que transborda poesia, ao ponto de nos sufocar com tanta beleza. Ainda que enfrente alguns problemas narrativos (o excesso de divisão de parágrafos incomoda, e o desenvolvimento extremamente rápido, apesar de necessário para garantir a aura poética, pode ser um problema para alguns), a juventude, sob a ótica de Sáenz, é tanto realista quanto doce, conseguindo encher situações cotidianas com emoções genuínas, que por sua vez fogem do sentimentalismo e da pieguice, armadilhas fáceis do gênero. 

De fato, o autor constrói um belo retrato da inocência e de sua perda - uma questão típica do amadurecimento, mas raramente tratada com a importância e a força que se vê aqui, sobretudo, por não ser motivada por nada além do mero ato de crescer e se conhecer. E não é assim mesmo que acontece conosco? Tudo, desde o desenvolvimento temático até a ambientação nos anos de 1980, certamente despertará as melhores lembranças saudosistas em seus leitores, de forma que quase é possível imaginar nitidamente suas cenas em tons de sépia. Sem dúvidas, é por que Sáenz conhece os segredos do Universo que foi possível para Ari e Dante descobri-los - e, nesse processo, somos meras testemunhas que acompanham o desenrolar dos acontecimentos como num nostálgico flashback

Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo é um livro tão absurdamente cativante e encantador que se torna impossível não render um sorriso ou uma risada praticamente a cada página. Um dos melhores exemplares da literatura YA dos últimos anos - e também um dos mais importantes para entender e aceitar a diversidade -, a experiência de acompanhar Ari é tanto extasiante quanto estarrecedora, mergulhando a fundo em sua psique. Sem dúvidas, um dos livros mais bonitos que li este ano.

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