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[Crítica] O Ano Mais Violento

Uma ode a O Poderoso Chefão .


Uma ode a O Poderoso Chefão.

Dentre os filmes esnobados pelo Oscar desta temporada, O Ano Mais Violento é, provavelmente, o que mais me entristece. O novo longa do cineasta J. C. Chandor é simplesmente uma pérola, sendo absolutamente espetacular do início ao fim e nunca falhando em entregar cenas genuinamente impressionantes.

Em O Ano Mais Violento, conhecemos Abel Morales (Oscar Isaac) e sua família. Abel é um imigrante latino dono de uma empresa no ramo petrolífero, em Nova York. No inverno de 1981 - estatisticamente um dos anos mais violentos da história da cidade -, ele e sua esposa, Anna (Jessica Chastain), estão prestes a fechar um ousado negócio, ao mesmo tempo em que têm que lidar com a violência desenfreada, causando prejuízos milionários à sua empresa, com a corrupção ao seu redor e com um advogado investigando a legitimidade legal de seus contratos. A crise ameaça destruir tudo o que os Morales trabalharam para construir por vinte anos.

O Ano Mais Violento é, ao mesmo tempo, uma ode e um herdeiro de O Poderoso Chefão. Ao longo de suas duas horas, é possível sentir a presença de Coppola pairando sobre cada cena e cada linha do roteiro. A fotografia em tons quentes, priorizando um belíssimo jogo de luz e sombras em sépia, não é somente uma referência à ambientação temporal do longa, o que fica claro em uma cena, próxima ao fim do segundo ato, em que Abel Morales entra num restaurante cujos mínimos detalhes parecem saídos diretamente da sala em que Vito Corleone firmou um acordo de paz após a morte de seu filho, Sonny. De fato, numa atuação que não pode ser descrita como nada menos que espetacular, Oscar Isaac, desde sua caracterização física até a construção psicológica de seu personagem, lembra Michael Corleone com tal vigor que parecemos estar encarando o próprio Al Pacino em cena. A frieza e a confusão de Abel são as mesmas que as do herdeiro do Padrinho, assim como seu penteado, sua postura e até mesmo seu olhar. Uma aproximação tão intensa a um clássico inestimável pode parecer falha para alguns; entretanto, inegavelmente, com O Ano Mais Violento, Chandor prova que o Padrinho ainda está vivo.

E, de fato, esta é uma obra cujo sucesso deve-se quase totalmente a Chandor. Seu trabalho é sensacional tanto na direção - comparável também à de outro mestre do cinema norte-americano, Sidney Lumet, com seus planos rígidos e travellings calculados, até mesmo impessoais, rompidos apenas em breves momentos em que a câmera treme num sinal de introspecção, fragilidade ou ápices de tensão - quanto no roteiro - que não só desenvolve seu argumento com maestria, como é cheio de diálogos incríveis. O Ano Mais Violento é um filme de um metodismo intenso, fazendo questão de calcular cada mínimo detalhe para exacerbar um clima sóbrio e tenso, mantido pelo silêncio quase perene, que é quebrado em poucos momentos pela belíssima trilha sonora de Alex Ebert, investindo pesadamente em sintetizadores e conseguindo um resultado final satisfatoriamente original.

Como se não bastasse o belo trabalho de seu diretor-roteirista, O Ano Mais Violento ainda conta com performances impressionantes. Isaac, por si só, já é um espetáculo à parte, mas é Jessica Chastain que, como sempre, se destaca. Mesmo num papel secundário (sua personagem quase não aparece no segundo ato), Chastain entrega uma atuação digna de aplausos. Completamente natural em cenas menores e absolutamente hipnótica nas três sequências de maior exigência, Chastain está tão perfeita que seu trabalho chega a ser sufocante. É em sua dedicação a pequenos detalhes, como em cenas em que Anna digita rápida e sagazmente com um lápis em uma máquina de escrever (ação que deve ser de uma dificuldade impensável para nós que nunca passamos por esta experiência), que percebemos seu imenso talento ainda não completamente reconhecido. E, é claro, não poderíamos excluir o crédito de Chandor em permitir que ambos os artistas brilhassem física e psicologicamente em seus papéis. Há um momento de discussão entre Abel e Anna em que os dois, mesmo frente a frente num escritório, não chegam a dividir o mesmo plano até o momento em que o conflito atinge seu ápice, quando passamos a encará-los de pé, à mesma altura; em outra sequência, o casal comparece a um jantar em que Anna observa uma conversa diplomática em silêncio, obviamente ansiosa para intervir, apenas para, na cena seguinte, demonstrar todo seu instinto de dominação e sua falta de escrúpulos ao sacrificar um animal atropelado, enquanto o marido hesita, por sua vez mostrando seus limites éticos e sua ressalva. Como é possível ver, tudo acaba se voltando para Chandor e seu calculismo: é ele o centro deste filme, a estrela mais brilhante, o que não significa que Isaac e Chastain estejam nada menos do que extraordinários. 

O Ano Mais Violento é um thriller excelente e envolvente que reverbera por muitas décadas da história do cinema norte-americano. O homônimo "ano mais violento" não é necessariamente abordado, mas sua decadência está presente em cada segundo e cada crise deste filme - o que, ao final, contribui para esta seja uma história sobre sucesso e fracasso. Ainda que seja desnecessariamente longo e por vezes arrastado, O Ano Mais Violento é um filme extasiante, sutil e obrigatório, que ainda consegue tempo para ser belíssimo.

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