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[Falando Sobre...] Marvel's Daredevil - A Primeira Temporada

Bem-vindos à Cozinha do Inferno.


Bem-vindos à Cozinha do Inferno.

[ATENÇÃO] Este texto pode conter SPOILERS.

Quem passou os últimos dias LoGGado na Netflix, dando uma passeada pelo bairro mais violento de Nova York, sabe bem que Marvel's Daredevil é o grande nome da nova leva de séries, neste até então morno 2015. Como falei no First Look (você pode conferir o texto clicando AQUI), dar início ao lado urbano do Universo Cinematográfico Marvel (MCU), com um nome como o do Demolidor, seria um passo até o acerto carimbado, visto que a única versão live action existente amarga o título injusto de "pior adaptação de quadrinhos já feita". 

Matt Murdock e sua escalada ao título de defensor máximo da Cozinha do Inferno daria pano para manga nas mais diferentes visões, porém, nenhuma delas seria mais honrosa do que aquela que respeitasse a releitura de Frank Miller em O Homem sem Medo (1993). Assim, o criador, Drew Goddard, e o showrunner, Steven S. DeKnight, trouxeram o demônio justiceiro em sua melhor forma. Adicionem aí o cinza granulado e o grafismo do traço de Alex Maleev - que inspirou a fotografia a as sequências mais violentas -, bem como a predileção pelo texto mais substancial de Brian Michael Bendis - algo notório nos longos diálogos entre Matt e o padre Lantom, ou mesmo naqueles protagonizados pelo querido Ben Urich -, que já podemos rotular Marvel's Daredevil como um dos maiores triunfos do gênero.

Contando um longo arco que, num primeiro olhar, busca traçar o caminho que levou Matt Murdock e Wilson Fisk a se encontrarem como a face de uma mesma moeda, a série nunca opta pela solução costumeira de lançar mão dos episódios esquemáticos (ou fillers), o que, bem sabemos é a maior vantagem da Netflix. A divisão do arco principal em três esferas maiores mostrando a construção da relação entre Ben e Karen, a luta de Matt para entender o sombrio crescimento do crime organizado na Cozinha, bem como a ascensão e queda de Fisk, revela não só a confiança dos roteiristas na história que querem contar, como também a predileção pelo significado de unidade, algo comum a todo o MCU.


Nesse meio, não faltam coadjuvantes carismáticos e expressivos, sejam eles amigos ou inimigos. Foggy Nelson, por exemplo, pode sim soar repetitivo com seu humor deslocado, porém, é só tomarmos conhecimento de como se deu toda a sua história com Matt - o episódio Nelson v. Murdock nos ganha graças à química comovente entre Charlie Cox e Elden Henson -, que o melhor amigo do Demolidor, mais uma vez, se justifica em toda sua necessária ingenuidade. O mesmo vale para o segundo lado de Foggy, que ao alimentar um interesse platônico por Karen acaba entrando mais e mais na investigação iniciada pela moça. Criando um motivo inicialmente bobo, mas totalmente plausível para lança-lo de encontro à trama principal.

É também graças a essa relação entre Foggy e Karen que personagens como a senhora Elena ganham escopo dramático para sustentar as reviravoltas mais dolorosas da trama. E aqui reforço mais uma vez a força do elenco da série, que oscila pontualmente entre o drama visceral e os poucos, porém bem-vindos, momentos de sossego, quando estão curtindo uma bebedeira no bar da Josie, ou até na Nelson and Murdock.

O destaque dado para Claire Temple, a Enfermeira Noturna de Rosario Dawson, também merece todo reconhecimento e aplausos dos fãs. Com apenas um episódio, o roteiro consegue imprimir que a conexão entre ela e Matt é real. E mais pra frente, quando a pista recompensa dada pelo primeiro conselho da enfermeira - ao encontrar o justiceiro à beira da morte -, é moldada na decisão final de Matt em providenciar uma proteção corporal para os embates, só nos resta abrir um sorriso diante da quadrinística solução.

Se no quadro de aliados do Demolidor uma pequena crítica pode ser feita, ela seria destinada a aparição de Stick. Um dos personagens mais emblemáticos deste primeiro ano termina servindo mais como um teaser da trama maior que deve ser desenvolvida futuramente, e só se sobressai graças ao carisma do veterano Scott Glenn. No entanto, o cliffhanger que abre a possibilidade para adaptação de arcos como Terra das Sombras empalidece todo e qualquer problema existente. Sem contar o tal Black Sky, que nas apostas vencedoras pode ser mais um inumano do MCU. 


Quando o crime em Hell's Kitchen ganha um rosto, a reunião prévia da chefia geral durante o piloto meio que já deixa claro como as coisas acontecem por lá. Fisk, Wesley, Madame Gao, os irmãos Ranskahov, Leland Owlsley e Nobu são as mentes por detrás de toda a violência desvairada que o Demolidor enfrenta pelos subúrbios de Nova York. Tendo em comum o colarinho branco e o poder mantido através do dinheiro sujo, todos os antagonistas do herói ganham destaque e identidade, sem precisar de origens exageradas, ou até mesmo superpoderes para se mostrarem ameaçadores. Os nomes maiores ficam com a misteriosa Madame Gao - vivida pela atriz Wai Ching Ho, uma presença quase mística no elenco -, o manipulador Wesley - ganhando a tela graças à expressão maliciosa de Toby Leonard Moore -, e o atormentado Wilson Fisk de Vincent D'Onofrio, que respeitando as origens mais atuais do personagem, carrega num autismo desconcertante, apenas uma máscara que guarda explosões violentas e assustadoras - o fim do episódio In the Blood que o diga.

O curioso é que, mesmo figurando como nomes menores na teia podre da Cozinha, são justo os irmãos Ranskahov e Nobu que protagonizam dois dos grandes momentos de Marvel's Daredevil. Os primeiros dão início ao fim do arco inicial da série no episódio mais tenso da temporada; já o segundo conduz a luta mais brutal. O embate entre Nobu e o Demolidor acaba nos dando pequenas dicas sobre um dos elementos mais conhecidos das HQ's, e termina numa sequência de arrepiar, que só vem ser igualada durante a luta catártica contra Fisk já na season finale.

Mais adiante, Ben e Karen acabam sendo puxados para os centros das tramoias de Wesley e Fisk, e é por meio deles que Matt vai podendo revelar o que descobre usando a bandana do mascarado. A dupla Deborah Ann Woll e Vondie Curtis-Hall vai criando uma relação de mestre e pupila, não muito comum, mas bem orgânica. O maior exemplo de como nos identificamos com o plot secundário dos dois personagens vem do entendimento que Ben possui sobre o passado de Karen, mas em nenhum momento chega a julgá-la. É impossível, assim, não se pegar emocionado quando o jornalista abre mão de tudo para revelar a história que vem perseguindo junto da secretária. Mesmo que, no fim, o preço pago seja um dos maiores socos desferidos pela série. 


Carregando uma invejável presença de cena, é no ator Charlie Cox que reside a alma de Marvel's Daredevil. É muito fácil protagonistas de séries acabarem sendo consumidos pelos coadjuvantes ao redor, por isto, chega a dar orgulho ver como o ator encarna Matt Murdock e o demônio, com uma entrega que não se compara a nenhum dos outros personagens. A gente teme pelo destino de Matt e acaba se emocionando nos twists mais brutais, porque Cox confere toda a substância necessária para fazer com que o advogado cego, desde a infância, possa sim ser um vigilante mascarado lutando contra o crime nas noites de um lugar chamado Cozinha do Inferno.

Funcionando como uma história de origem, como um conto de máfia, como uma aventura retirada da mais cultuada graphic novel, Marvel's Daredevil é mais um sucesso a ser registrado na conta da Marvel Studios. Um violento, inspirado e magistral sopro de novidade num gênero que, a despeito do preconceito vigente, se mostra cada vez menos engessado.

O ceguinho de Hell's Kitchen ganha o mundo mais uma vez... E agora a parada é digna de toda a importância que ele sempre mereceu. Indispensável, meus caros, indispensável!

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