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[Falando Sobre...] Sense8 - A Primeira Temporada


Ah, os Wachowski. Tão amados, tão odiados e tão incompreendidos. Com uma carreira de altos e baixos no cinema, de fato, não há produção mais inconstante do que dos irmãos Larry e Lana, que, num espaço de três anos, fazem o maravilhoso A Viagem, o vergonhoso O Destino de Júpiter e se redimem apenas alguns meses depois com Sense8, que, se depender apenas da qualidade da primeira temporada, pode vir a se tornar sua obra máxima.

Em Sense8, somos apresentados a oito diferentes personagens: Will Gorski (Brian J. Smith) é um policial de Chicago assombrado por um crime de sua infância; Riley Blue (Tuppence Middleton) é uma DJ islandesa refugiada em Londres devido a seu passado problemático; Nomi Marks (Jamie Clayton) é uma transexual "hackativista" vivendo em São Francisco; Capheus (Aml Ameen) é um motorista de ônibus queniano tentando cuidar de sua mãe doente; Sun Bak (Doona Bae) é uma poderosa executiva na empresa de sua família, em Seul; Kala Dandekar (Tina Desai) é uma farmacêutica em Mumbai, noiva de um homem que não ama; Wolfgang Bogdanow (Max Riemelt) é um ladrão de bancos envolvido no crime organizado de Berlim; e Lito Rodriguez (Miguel Ángel Silvestre) é um ator de novelas mexicanas que esconde sua sexualidade e seu relacionamento com outro homem. Oito pessoas, de diferentes lugares no planeta, num instante desconhecidos e, noutro, conectados para sempre.

Desde seu primeiro episódio, Sense8 aspira a A Viagem. As semelhanças temáticas são fortes e evidentes, mas, enquanto o filme de 2012 demonstrava-se interessado em reflexões existencialistas e em brincar com gêneros narrativos, Sense8 volta-se para o desenvolvimento de personagens e a exploração de diferentes culturas ao redor do mundo, entrelaçando-as a temas extremamente atuais e políticos. É revigorante ver uma trama sobre o embate entre tradição e modernidade num país como a Índia ser retratada de maneira aprofundada, fugindo às caricaturas típicas do etnocentrismo norte-americano; ou, ainda, a abordagem à realidade de pobreza na África, que, apesar de talvez um pouco excessiva em sua pontualidade, traça um sublime comentário sobre segregação socioeconômica e conflitos étnicos.

O discurso político marca forte presença nos textos da série; não é à toa que a produção tenha se tornado uma sensação LGBT+ da noite para o dia. Seu ideal libertário e igualitário abre espaço para discussões sobre sexualidade, gênero, cultura, sociedade e política, de maneira que poucas narrativas se arriscam a fazer, talvez por falta de ousadia ou pelo receio que temas tão complexos impõem: já em seu piloto, encaramos transfobia, misoginia, marginalização étnica e um sensível e cuidadoso tratamento à depressão, ao som da etérea Sigur Rós, e daí para frente veremos aos montes temas como libertação feminina, patriarcalismo, fundamentalismo religioso, dominação cultural, LGBTfobia, etc. Não que Sense8 seja perfeito - uma coreana mestre em artes marciais e um mexicano envolvido em cartéis de drogas talvez sejam um pouco mais estereotipados do que deveriam -, mas sua total falta de pudor em abordar abertamente sexo e todo tipo de diversidade demonstram um grande comprometimento com um ideal que não poderia ser melhor representado do que no poderoso discurso de Nomi em I Am Also a We.


De fato, talvez a melhor maneira de analisar Sense8 seja pautando sua ousadia, não apenas temática, que desconstrói inúmeros paradigmas enlaçados a vários preconceitos intrínsecos em nossa sociedade ocidental, mas também técnica. Grande parte do sucesso e da absurda coesão da narrativa se deve à montagem milagrosa, merecedora de todos os prêmios possíveis da categoria, entrelaçando os oito personagens através de associações de ideias que, não tenho dúvidas, não são fáceis de serem concebidas pelos roteiristas, nem mesmo de serem rodadas; isto sem contar as belíssimas cenas de ação, que não podem ser caracterizas de outra maneira senão pelo puro êxtase, de tão espetacularmente montadas.

A direção firme, também dos colaboradores, mas especialmente da família Wachowski, é o principal eixo de convergência destes aspectos. O desenvolvimento é de uma harmonia visual tão espantosa que seria difícil que não surgissem cenas icônicas desde já, como a excepcional sequência musical em What’s Going On?, ou a fortíssima concorrente a melhor cena de sexo já feita em Demons, ou ainda a belíssima sequência de múltiplos nascimentos no clímax de What Is Human? A trilha incidental de Tom Tykwer e Johnny Klimek, originalíssima, também é essencial para a composição atmosférica, e a fotografia, ainda que não ganhe enfoque especial como em Daredevil, é sempre muito bela ao destacar seus ambientes, seja a aridez das favelas quenianas, a frieza da Europa e dos escritórios coreanos ou as cores vibrantes da Índia. 

É difícil, entretanto, compor uma temporada de estreia absolutamente perfeita. É evidente que os incômodos problemas de ritmo de A Viagem foram consertados, a fim de alcançar uma simetria quase operática - o que não significa que todos os episódios sejam igualmente relevantes ou magistralmente executados. Há pelo menos três capítulos um tanto desinteressantes nesta temporada, ainda que não sejam essencialmente menos que bons, e é claro que, para cada episódio menos intenso, temos maravilhas como Death Doesn’t Let You Say Goodbye, o já citado What Is Human? e a maravilhosa finale I Can’t Leave Her, que exibem não só o belo trabalho técnico, como também uma sensibilidade imensa e jubilosamente humana.

Ainda que nem todos os dramas pessoais sejam igualmente interessantes - Lito e sua sátira à indústria cinematográfica, por exemplo, são por vezes escrachados demais para serem considerados verdadeiramente relevantes -, todos fogem ao lugar comum de histórias do gênero (o que tem respaldo direto no tanto de política envolvida em sua narrativa), e os personagens são tão absurdamente apaixonantes que é impossível não ignorar ao menos momentaneamente as falhas em suas tramas, particularmente diante de performances tão poderosas quanto as de Tuppence Middleton e Jamie Clayton, ou tão enérgicas quanto as de Aml Ameen, Max Riemelt, Doona Bae e Freema Agyeman. E, ainda que suas histórias individuais tenham tal força a seu favor, não são elas o principal trunfo das relações interpessoais presentes na série, e sim as interações entre sensatez, que descobrem aos poucos o tanto que têm em comum e o que podem fazer para ajudar uns aos outros. Sem dúvidas seus diálogos são didáticos, pouco sutis e mais expositivos do que deveriam, mas volta e meia entregam pérolas poéticas que serão citadas ad aeternum pelos já inúmeros fãs da saga dos sensates.

Visualmente esplendoroso e emocionalmente ressonante, Sense8 é desde já um hino pela liberdade individual, uma explosão apoteótica de cor, fantasia, sexo e humanidade. A trama principal (leia-se: a busca de Will e companhia por respostas) poderia ser um pouco menos linear e mais aprofundada, assim como seus antagonistas e mitologia, mas é difícil protestar por algo mais quando lembramos o maravilho desenvolvimento dramático de seus protagonistas e seus contextos culturais - que, felizmente, graças a ganchos pontualíssimos, poderão ter continuidade individual no próximo ano. Mal posso esperar para que estes pontos sejam devidamente explorados numa nova temporada, a partir das pequenas dicas e pequenas participações dadas por tão misteriosos personagens, revelando uma trama maior e mais complexa. Ao final, Sense8 funciona pela dinâmica maravilhosa que não seria alcançada sem a extrema ousadia criativa, típica dos Wachowskis, e que aqui tem mais sucesso do que nunca: um trabalho de encher os olhos, o coração e a mente.

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