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Crítica | Sete Homens e um Destino


Uma das obras mais influentes do cinema mundial é, sem dúvida, Os Sete Samurais. Dirigido por Akira Kurosawa, o longa conta a história de sete guerreiros contratados por humildes camponeses para defender sua comunidade de perigosos saqueadores. Seis anos depois, o norte-americano John Sturges apropriou-se dessa premissa e fez o faroeste Sete Homens e um Destino. Cinco décadas depois, chega aos cinemas uma releitura do faroeste, agora dirigido por Antoine Fuqua e com algumas melhoras consideráveis em relação ao “original”.

Após presenciar o ataque de sua cidade pelo bando liderado pelo empresário Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard), a fazendeira viúva Emma Cullen (Haley Bennett) contrata os serviços do caçador de recompensa Sam Chisolm (Denzel Washington). Solidário com a causa de sua contratante, Chisolm tem consciência de que ele sozinho não pode defender uma cidade inteira. Com isso, ele recruta mais seis homens para auxiliá-lo nesta cruzada: o vigarista Josh Faraday (Chris Pratt); o atirador Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke) e seu sócio especialista em armas brancas, Billy Rocks (Byung-hun Lee); o fora-da-lei Vasquez (Manuel Garcia-Rulfo); o caçador Jack Horne (Vincent D’Onofrio); e o nativo norte-americano Red Harvest (Martin Sensmeier). Uma vez na cidade, os sete homens derrotam os capangas de Bogue que estavam assegurando a posse do local e ensinam os habitantes a se defenderem, de forma a terem uma vantagem contra Bogue e seu numeroso grupo de pistoleiros que está sedento por revanche.

Responsável por uma obra irregular, composta tanto pelos bons Dia de Treinamento e O Protetor quanto pelos inconsistentes Rei Arthur e Nocaute, o cineasta Antoine Fuqua encara com segurança o desafio de conduzir seu primeiro western. As cenas de ação são brilhantemente executadas e a batalha final é carregada de tensão e drama. O tempo de tela entre os personagens é muito bem dividido e podemos acompanhar cada um de seus dramas pessoais, fazendo com que, consequentemente, nos importemos com cada um deles (e com seus respectivos destinos). Porém, Fuqua falha nos primeiros minutos do filme em que é necessário mostrar o drama dos habitantes da cidade, que acaba resultando em uma sequência fraca e artificial.

O roteiro escrito a quatro mãos por Nic Pizzolatto e Richard Wenk tem algumas grandes sacadas, como, por exemplo, criar uma personagem feminina forte (interpretada por Haley Bennett), que, ao invés de estar na história para ser interesse romântico de um dos personagens, tem um papel importante e ativo na defesa de sua cidade, chegando a salvar algumas vidas durante a batalha final; e tornar o grupo de heróis mais diverso ao inserir um negro, um oriental, um nativo norte-americano e um latino, fazendo com que o filme tenha atualidade e relevância para as plateias de hoje. Contudo, o longa sucumbe a alguns clichês, sendo o mais gritante deles o vilão unidimensional e desinteressante. E por mais que seja incrível assistir Peter Sarsgaard (um dos atores mais subestimados do cinema americano) atuando no modo psicótico, boa atuação não salva personagem mal desenvolvido.

Não obstante, o que faz de Sete Homens e um Destino um espetáculo prazeroso é o carisma de seus protagonistas. Denzel Washington aproveita a aura de herói que vem construindo em filmes como Déjà Vu e O Livro de Eli para criar um personagem cujas razões para aceitar a tarefa de deter o vilão nós só entendemos nos minutos finais do filme. Chris Pratt faz bom uso de seu afiado timing cômico para compor um herói que é uma mescla dos personagens interpretados por Toshiro Mifune e Horst Buchholz nas versões anteriores. Ethan Hawke interpreta um homem cujo drama pessoal remete ao vivido pelo personagem interpretado por Robert Vaughn na versão de 1960, e o ator consegue transmitir todo o trauma e complexidade de Goodnight Robicheaux apenas com o olhar desorientado e a respiração vacilante. No entanto, quem rouba a cena é Vincent D’Onofrio. Adotando uma voz aguda, uma dicção quase incompreensível e uma aparência corpulenta cuja barba auxilia para que beire ao grotesco, o veterano ator abraça a oportunidade de interpretar um herói leal, capaz de ações e discursos generosos, fazendo de Jack Horne um dos personagens mais interessantes do filme.

Ainda que não remeta a genialidade do clássico de Kurosawa e nem a grandiosidade do filme de John Sturges, Sete Homens e um Destino é um novo western para os novos tempos. Em dias nos quais Donald Trump é um candidato forte a assumir a presidência norte-americana, colocar um mexicano como herói de destaque em um filme pode ser encarado como um ato revolucionário. Ponto para Fuqua e os demais responsáveis, apesar dos deslizes.

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