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Marvel's Luke Cage | Os sete primeiros episódios da série (sem spoiler)


Uma das coisas mais comuns de acontecer é a decepção causada por altas expectativas, e se tem uma coisa que as séries da parceria Marvel/Netflix fizeram até agora foi isso: gerar expectativa. Com a alta qualidade dos lançamentos dessa parceria, o público sempre fica ansioso para o que vem depois, sempre esperando algo incrível e que supere o anterior. Eventualmente isso vai gerar decepção, e todos sabemos disso, mas o que importa por enquanto é que com a chegada da série do Luke Cage essa decepção não veio. No lugar dela o que temos é uma obre impecável, que deixa sua marca entre as séries de heróis e apresenta uma identidade diferente de suas predecessoras.

Da mesma forma que suas predecessoras, Marvel's Luke Cage não é uma série de pura ação com grandes efeitos especiais. Ao invés disso o que vemos é algo que lembra um pouco Marvel's Jessica Jones, de modo que essa série possui um foco grande no drama e em sua história principal. A ação existe, em doses certas e sempre de qualidade (com espaço até mesmo para momentos engraçados), mas não é o centro das atenções e isso é muito importante para a história, uma vez que diz muito sobre a forma como o personagem principal é retratado. Luke só usa sua força quando é realmente necessário, especialmente quando isso envolve ajudar alguém. Alguém assim não poderia ter cenas de ação a cada dez minutos, e essa foi uma decisão inteligente.

Falando sobre o personagem principal, Luke é um dos maiores acertos da série. Muito bem escrito e brilhantemente interpretado por Mike Colter, ele é uma mistura perfeita entre alguém real (com problemas e questões do dia a dia) e um ser superpoderoso. Luke vai ter que lidar com um ou mais “vilões” ao longo dos episódios, mas o que mais fica claro é o fato de que ele tem que lidar com a realidade na qual está inserido.

A série discute, por meio de seu personagem central e de muitos dos personagens de apoio, questões do mundo real e, especialmente, questões que afetam a população negra. Personagens negros marcantes na história são citados ao longo da série, e é discutido o uso de palavras ofensivas para se referir à população afrodescendente americana. Novamente lembrando um pouco Marvel's Jessica Jones, o personagem principal é um ser inserido na sociedade e enfrenta problemas que são reais para pessoas daquele gênero ou estrato social no qual ele ou ela se encontra. A forma como os roteiristas conseguiram tocar em assuntos tão importantes, e cuja discussão é tão necessária, sem cair em clichês é algo realmente impressionante.

E se Luke é o representante máximo de toda a habilidade dos roteiristas e diretores, o mesmo pode ser dito do seu elenco de apoio. Não importa quanto tempo eles tenham de tela, todos os personagens soam diferentes, únicos entre si e ao mesmo tempo extremamente reais. Alguns, é claro, se destacam: Cornell Stokes, Misty Knight (personagem dos quadrinhos que todos já sabiam que ia aparecer) e Claire Temple.  Estes três são importantes não só pelo tempo que eles têm de tela, mas pelo conjunto da obra. Cornell é um dos personagens mais complexos da série, passando longe de ser um vilão genérico ou pouco memorável. Misty é, imagino eu, aquilo que os fãs dos quadrinhos esperavam: forte, determinada e, acima de tudo, humana. Ela não parece se conformar em ser personagem secundária e é sempre marcante quando está em cena. Claire é a mesma enfermeira e conselheira que já vimos antes, mas aqui ela aparece tendo um papel mais ativo nos acontecimentos. Rosario Dawson realmente merecia algum prêmio pela forma como conduz sua atuação com essa personagem.


Todos esses ótimos personagens funcionam muito bem juntos, mas outro ponto que impressiona é a forma como eles interagem com o espaço onde estão inseridos. O bairro do Harlem é quase um personagem da série, em certos momentos a fotografia e a música nos dão a impressão de que ele é algo vivo. Hell’s Kitchen funciona de modo parecido nas séries que se passam lá, mas o Harlem é muito mais impactante para o enredo, uma vez que o bairro traz consigo todas as questões sociais e raciais inerentes ao personagem principal e aqueles que o rodeiam. Muito além de ser apenas o local onde a série se passa, o Harlem é parte da série, e entender isso é muito importante para saber as motivações de alguns dos personagens.

E já que eu citei a música é importante elaborar um pouco mais a respeito disso. A trilha sonora da série é um dos grandes pontos que a separa de suas predecessoras. A música faz parte do Harlem e, portanto, da história. Ela está presente em diversos momentos e é sempre marcante. Seja nos shows ao vivo no clube do Cornell ou nos fones de ouvido do Luke Cage, a música tem um efeito impressionante nas cenas. Ela dá vida a tudo, não só ao bairro, e funciona como ponto de ligação entre a série e o telespectador. Sua importância é tão grande que posso falar sem medo que, sem ela, a série não teria o mesmo impacto.


Para os fãs dos quadrinhos, a série também é um prato cheio: existem várias referências, desde falas dos personagens até as visuais (especialmente com o personagem principal). Quem já leu sobre o Luke Cage vai se divertir ao se deparar com isso. Outro ponto interessante é a proximidade entre a série e as revistas. Claro que não é uma adaptação integral da origem do personagem, mas muito do que a série apresenta foi tirado ou inspirado da história de origem do personagem, o que deixará os fãs bem contentes. E uma dica: tentem lembrar o nome de herói que, nos quadrinhos, o Luke tinha no começo de sua carreira.

No geral, Marvel's Luke Cage é uma série fantástica. Com algumas das melhores qualidades presentes em Marvel's Jessica Jones, mas apresentadas de uma maneira única e muito bem acabada, a série tem uma identidade própria que a diferencia de tudo o que já vimos em termos de herói até hoje. Sem ver todos os episódios, ainda é cedo para falar se ela é a melhor coisa que a parceria Marvel/Netflix já produziu. Mas mesmo que não chegue a isso, sem dúvida essa será uma obra icônica que tem potencial para abrir caminhos ainda não explorados no que se refere a heróis na televisão.

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